Impelidos pelo Espírito à missão

 

Se em 2015 o papa Francisco nos convidou a refletir, no Dia Mundial de Oração pelas Vocações, sobre o seguimento de Jesus, ou o “sair de nós mesmos” para escutar o chamado de Deus, e se no ano passado a reflexão foi sobre a importância da comunidade no processo vocacional, “lugar privilegiado onde nasce, alimenta e se exprime o chamado”, este ano o tema do 54º Dia Mundial de Oração pelas Vocações aprofunda a dimensão missionária da vocação.

Assim escreve o papa: “Quem se deixou atrair pela voz de Deus e começou a seguir Jesus, rapidamente descobre dentro de si mesmo o desejo irreprimível de levar a Boa Nova aos irmãos, através da evangelização e do serviço na caridade”.

 

Somos missionários! Tal compromisso situa-se no âmago da própria fé: a relação com o Senhor implica ser enviados ao mundo como profetas da sua palavra e testemunhas do seu amor. Não há o que temer. O próprio Deus vem nos ajudar e nos tornar aptos à missão. “Se experimentamos em nós muita fragilidade e às vezes podemos sentir-nos desanimados, devemos levantar a cabeça para Deus, sem nos fazermos esmagar pelo sentimento de inaptidão, nem cedermos ao pessimismo, que nos torna espetadores passivos duma vida cansada e rotineira”, afirma Francisco.

 

 

Somos cristóforos, ou seja, “levamos Cristo” aos irmãos. Isto vale de forma particular às pessoas que são chamadas a uma vida de especial consagração, e também aos sacerdotes, que generosamente responderam «eis-me aqui, envia-me». São chamados a sair dos recintos sagrados do templo para consentir à ternura de Deus de transbordar em favor da humanidade.

 

Ao falarmos de missão, certamente surgem interrogações:
Que significa ser missionário do evangelho?
Quem nos dá a força e a coragem do anúncio?
Qual é a lógica evangélica em que se inspira a missão?

 

Podemos dar resposta a estas questões, contemplandotrês cenas evangélicas:
O início da missão de Jesus na sinagoga de Nazaré (cf.Lc4,16-30);
O caminho que ele, ressuscitado, fez com os discípulos de Emaús (cf.Lc24,13-35);
A parábola da semente (cf.Mc4,26-27).

 

Jesus é ungido pelo Espírito e enviado.
Ser discípulo missionário significa participar ativamente na missão de Cristo, que ele próprio descreve na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a libertar os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc4,18-19).

Esta é também nossa missão: sermosungidospelo Espírito eirmos aos irmãospara anunciar a Palavra, tornando-nos um instrumento de salvação para eles.

 

Jesus vem colocar-se ao nosso lado no caminho.
Perante as interrogações que surgem do coração humano e os desafios que se levantam da realidade, podemos sentir-nos perdidos e sem esperança. Há o risco de que a missão cristã apareça como uma mera utopia irrealizável ou, em todo o caso, uma realidade que supera nossas forças. Mas, se contemplarmos Jesus Ressuscitado, que caminha ao lado dos discípulos de Emaús (cf.Lc24,13-15), é possível reavivar a nossa confiança. Nesta cena evangélica temos uma autêntica e real “liturgia da estrada”, que precede a da Palavra e da fração do Pão e nos faz saber que, em cada passo nosso, Jesus está junto de nós. Os dois discípulos, feridos pelo escândalo da cruz, estão de regresso à casa, percorrendo o caminho da derrota: levam no coração uma esperança despedaçada e um sonho que não se realizou. Neles, a tristeza tomou o lugar da alegria do evangelho. Que faz Jesus? Não os julga, percorre a própria estrada deles e, em vez de erguer um muro, abre uma nova brecha. Pouco a pouco transforma o seu desânimo, inflama o seu coração e abre os seus olhos, anunciando a Palavra e partindo o Pão.

Da mesma forma, o cristão não carrega sozinho o encargo da missão, mas experimenta – mesmo nas fadigas e incompreensões – que “Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária” (Evangelii gaudium, 266).

 

Jesus faz germinar a semente.
O evangelho convida-nos a rejeitar a idolatria do sucesso e do poder, a preocupação excessiva pelas estruturas e uma certa ânsia que obedece mais a um espírito de conquista que de serviço. A semente do Reino, embora pequena, invisível e, às vezes, insignificante, cresce silenciosamente graças à ação incessante de Deus: “O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Quer esteja dormindo ou acordado, de noite e de dia, a semente germina e cresce, sem ele saber como” (Mc4,26-27).

A nossa confiança primeira está aqui: Deus supera as nossas expetativas e nos surpreende com a sua generosidade, fazendo germinar os frutos do nosso trabalho para além dos cálculos da eficiência humana.

 

O Espírito é o fundamento da missão. Não poderá jamais haver pastoral vocacional ou serviço de animação vocacional, nem missão cristã, sem a oração assídua e contemplativa. Neste sentido, é preciso alimentar a vida cristã com a escuta da Palavra de Deus e, sobretudo, cuidar da relação pessoal com o Senhor na adoração eucarística, “lugar” privilegiado do encontro com Deus.

Papa Francisco, ao final da mensagem, pede às comunidades paroquiais, associações e numerosos grupos de oração da Igreja que continuem pedindo ao Senhor que envie operários à sua messe.

Devemos anunciar e propor, sobretudo aos jovens, o seguimento de Cristo. Os jovens têm o desejo de descobrir o fascínio sempre atual de Jesus, de deixar-se interpelar e provocar pelas suas palavras e gestos. O povo de Deus precisa ser guiado por pastores que gastam a sua vida ao serviço do evangelho.

 

 

Ó Maria Santíssima,
Mãe do nosso Salvador,
vós que tivestes a coragem de abraçar o projeto de Deus,
de sonhar com uma vida plenamente humana e feliz, de gastar-se no amor,
vós que colocastes vossa juventude e entusiasmo nas mãos do Criador,
intercedei por nós!

Que tenhamos a mesma abertura de coração,
a prontidão em dizer o nosso “Eis-me aqui” ao chamado do Senhor
e a alegria de nos colocar a caminho, como Maria,
para anunciar o projeto de Deus ao mundo inteiro.

Amém.

 

*Para acessar a mensagem completa, em português, acesse:

 

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/vocations/documents/papa-francesco_20161127_54-messaggio-giornata-mondiale-vocazioni.html




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