Alguns dias após a festa da Assunção de Nossa Senhora recebi uma carta redigida por três bispos eméritos, encaminhada por e-mail por uma colega religiosa, do Mosteiro de Passos (MG). Animados pela visita do papa Francisco ao Brasil e todo o seu dinamismo, Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás, e Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, recordaram do assim chamado "Pacto das Catacumbas". Foi um texto redigido e assinado por alguns bispos após uma celebração eucarística na Catacumba de Santa Domitila, em Roma, dias após a conclusão do Concílio Vaticano II. Dom José Maria Pires foi um dos que assinou, bem como o nosso querido Dom Helder Camara. "Foi assim que se inaugurou a recepção corajosa e profética do Concílio", escreveram os três bispos eméritos. Desejando contribuir com a reflexão eclesial neste novo contexto em que estamos vivendo, eles enviaram o texto original do Pacto, mesmo porque, segundo os bispos, "várias pessoas, em diversas partes do mundo, estão pensando num novo Pacto das Catacumbas".

 

A seguir, alguns trechos do Pacto das Catacumbas, o pacto da Igreja servidora e pobre:

 

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue.

 

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje, nas insígnias de matéria preciosa.

 

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo em nome da diocese ou das obras sociais ou caritativas.

 

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos.

 

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes que signifiquem a grandeza e o poder. Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre.

 

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos.

 

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social.

 

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e operários, compartilhando a vida operária e o trabalho.

 

9) Cônscios de exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes.

 

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus.

 

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade —, comprometemo-nos:

— a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

— a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como e fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

 

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

— esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;

— suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;

— procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;

— mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião.

 

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

Pe. Juarez Destro, RCJ

 

 




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